Interiorizando o Brasil

Uma das características únicas do Brasil é a imensa concentração econômica em uma parte pequena do território. O Estado de São Paulo tem a dimensão da Italia e concentra algo como 35% da atividade produtiva. Dentro do estado, metade dessa atividade está localizada na região metropolitana. Grosso modo, a parte industrial e agrícola paulista se distribui pelo interior. Os escritórios comerciais e empresas de serviços ficam na capital

Deseconomia de escala é um conceito muito utilizado na Faculdade de Economia mas raramente aplicado na gestão urbana. Deseconomia de escala é aquele ponto onde os benefícios da concentração econômica são superados pelos malefícios do gigantismo. Sempre que alguém reclama que a cidade grande é violenta, ou que se gasta muito tempo no trânsito, sempre há o contra-argumento de que os clientes estão aqui, os consumidores também, os negócios acontecem na capital. O covid-19 mudou essa visão em definitivo

Todos nós estamos descobrindo que é possível manter uma rotina normal de trabalho a distância, utilizando-se da tecnologia já disponível. Por incrível que pareça, as previsões pessimistas de que a rede de telecomunicação nacional é ultrapassada e não aguentaria um pico de demanda se mostraram infundadas. Estamos todos em casa, pendurados na internet, trabalhando, consumindo informações, trocando materiais e se divertindo com os amigos sem enfrentar maiores problemas.

A constatação de que é possível produzir sem estarmos todos em um mesmo espaço físico mudará em definitivo a forma como as pessoas estruturam suas vidas. Porque viver em uma grande capital, com toda a poluição, violência, trânsito, falta de educação e, nos dias atuais, carga viral se podemos ir morar em uma agradável cidade do interior, em uma casa maior, com jardins a volta, menor risco de assalto, maior proximidade com vizinhos e amigos, e continuar trabalhando para a mesma empresa, com o mesmo ganho?

Olhando pelo outro lado, por que uma empresa precisa agora manter um caro escritório em uma avenida nobre da cidade se ela pode se utilizar de novos processos de trabalho e gerenciamento de capital humano para manter seus valiosos recursos humanos produzindo remotamente com eficiência?

O Brasil felizmente irá assistir a uma enorme desconcentração demográfica e econômica. Prefeitos mais proativos podem já começar a considerar a possibilidade de preparar suas cidades para novos moradores. Empresas com bases industriais no interior podem planejar a redução acentuada de área de seus caros escritórios nas capitais. Empresas de telecomunicação e serviços online devem considerar não apenas um crescimento substancial do fluxo de dados como também uma melhor distribuição por toda a malha. As antenas de celular, tão difíceis de serem instaladas na cidade de São Paulo, encontrarão melhor abrigo nas cidades do interior

Obviamente, o setor de serviços e o varejo precisará acompanhar essa nova distribuição espacial da população. Uma parte das lojas que estão hoje fechadas nas capitais por conta do isolamento provavelmente jamais reabrirão. Mas o nosso enorme interior ficará muito feliz em recebê-las.

Um novo país se desenha, abrindo enormes oportunidades para todos nós