Oscar Motomura – CEO e fundador Grupo Amana-Key

CEO e fundador Grupo Amana-Key, Motomura é especialista em gestão, estratégia e liderança. Mestre em Psicologia Social. Formado em administração, com especializações em finanças, banking e gestão de tecnologia. Executivo multidisciplinar, atua principalmente na área de reinvenção da identidade e das macroestratégias de organizações complexas do setor público e privado – nacionais e multinacionais – no Brasil e no exterior. É um dos palestrantes brasileiros do eWMS 2020, que será realizado nos dias 5, 6 e 7 de novembro.

Há quase meio século, você está à frente da Amana-Key, onde as palavras Radical e Liderança se encontram e têm forte significativo. O quanto os líderes precisarão ser radicais para enfrentar esses novos tempos?

Digo radical no sentido de ir à raiz (radix) dos problemas, das equações que precisam ser resolvidas. Se não fizermos isso, ficamos no superficial, nos sintomas e nada se resolve. É só notar o que não funciona a contento ao nosso redor: governos que não conseguem governar, escolas que não conseguem educar, sistemas de segurança pública que não dão segurança à população, sistemas de saúde deficiente, burocracia e lentidão nos serviços públicos, desigualdades de todo tipo na sociedade. Radical também no sentido de oposto ao incremental (pequenas melhorias naquilo que já existe), que pode levar ao paradoxo de querer melhorar o que já está obsoleto. Hoje, temos nas organizações de todos os setores excesso de líderes que são bons em manter o que existe. Poucos são capazes de criar inovações radicais que eliminem as deficiências crônicas existentes em todos os setores da sociedade. Mais do que nunca, os líderes precisarão ser radicais para fazer face aos desafios destes novos tempos, repletos de incertezas. Quantos conseguirão fazer a necessária transição para uma forma de atuar inédita, nestes tempos de crise global e surpresas quase diárias? Somente aqueles capazes de lidar com mudança cultural – sua própria, da organização que dirigem e da própria sociedade? Aqui está o grande desafio dos líderes para estes novos tempos.

Em 2019, sua mensagem era “vamos fazer algo radicalmente diferente para a retomada do crescimento”. Mas, veio a pandemia… Qual é a sua mensagem para um futuro próximo?

Em 2019, ainda no meio de uma longa recessão econômica no país, a mensagem era essa: a busca de inovações radicais para dar a virada na economia. Coloco aqui, algumas reflexões, para pensarmos juntos. Podemos realizar um grande mutirão nacional para fazer o necessário acontecer, na velocidade requerida? Um esforço integrado e não iniciativas fragmentadas e desconexas? É possível tornar o Brasil uma sociedade sem papel, 100% digital, como já acontece em países como a Estônia, Finlândia? Estamos preparados para um megaprojeto de mudança cultural para resgatar a ética no país, sob a premissa de que “sem ética não é possível otimizar a economia”? Estamos dispostos a transformar a imagem do país (com ações efetivas e não jogadas de marketing) na direção de um país que contribui para o bem-estar da humanidade e do planeta e, assim, pode potencializar investimentos conscientes, maximizando bons negócios internacionais? Hoje, a ideia de ficar em compasso de espera está superada no mundo todo. Essa foi a grande contribuição da pandemia global. Ficou evidente que ficar adiando as coisas e querer permanecer em zonas de conforto é algo mortal num contexto como o que a pandemia criou. A nova mensagem está na velocidade com que podemos fazer mudanças e na solução do que chamamos “equações impossíveis” que nem chegavam à mesa de decisão. A mensagem de 2019 continua. Mas, hoje, as pessoas estão ouvindo com mais atenção. A pandemia parece ter atropelado as resistências às mudanças de muitos.

Uma das teorias que você defende é a de que cada um deve trabalhar para si, mas também para contribuir com o coletivo. O quanto essa máxima se aplica, hoje?

Isso parece puro bom senso, não é mesmo? Como posso ter sucesso sozinho num todo que esteja declinante, doente…? Mas, a sutileza é fazer as duas coisas ao mesmo tempo e não primeiro extrair ao máximo para só depois devolver um pouco. Essa teoria é do Nash que questionou Adam Smith sobre o famoso “greed is good”, dos capitalistas mais extremados. Fazer as duas coisas ao mesmo tempo seria a máxima dos partidários do capitalismo consciente. Se é aplicável hoje, nos novos tempos que estamos vivendo? Com certeza. Sabemos que os sistemas doentes ao nosso redor, gerados por toda forma de egoísmo – inclusive o que chamo de egoísmo coletivo – são a causa-raiz de sucessivas crises que vêm sendo produzidos ao longo destes últimos séculos. A crise da pandemia está revelando muitas realidades em relação às quais muitos de nós não percebíamos, como as doenças do gigantismo, o valor dos pequenos/locais, a força da solidariedade para a superação de crises e a viabilização do impossível. Liderança de si e a busca do bem comum, ao mesmo tempo, sempre constituíram uma máxima essencial para a evolução equilibrada da humanidade. Isso só está ficando mais evidente.

O professor Philip Kotler tem provocado reflexões sobre o papel de lideranças e empresários, em todo o mundo, e sobre o legado para gerações futuras. Como gostaria de ser lembrado e que legado quer deixar para os mais jovens?

Uma coisa é o legado que gostaríamos de deixar. Outra coisa é o que deixamos efetivamente a partir de tudo que fazemos no dia a dia. Outra coisa ainda é o legado percebido e recebido por diferentes pessoas ao nosso redor. Nem sempre sabemos em que sentido inspiramos os outros. Nem como, nem quando. Uma pessoa como o Kotler vem deixando legados de todo tipo ao longo de sua vida. Quão consciente ele está de tudo que ele vem deixando? É também possível que ele queira, a partir de quem ele é hoje, deixar um legado maior ou diferente. Acredito que todos nós geramos e deixamos legados para as futuras gerações. Queiramos ou não. Possível também deixar “legados negativos” em relação àquilo que prevalece em certas culturas? E isso pode ser bom se a moral vigente nessa cultura não for universal e ética? O assunto é complexo… Não penso muito em legados. O mais importante para mim é fazer o melhor que posso em meu dia a dia – como ser humano e como profissional – para o bem comum. O “legado” é consequência natural. E nunca sei como a teia da vida irá ser tecida… Por isso, há surpresas o tempo todo. Coisas inesperadas. Não intencionadas… Estaria aí o legado mais genuíno…?

Ainda sobre legado… os líderes nas empresas estão com um olhar mais sensível para essa e outras questões?

Sim. E acho que é uma tendência a sensibilidade vir à tona. Às vezes, as pessoas percebem os paradoxos que existem no mundo, mas apressando resultados, metas, tudo isso, torna a vida tão estressante que as pessoas não param pra pensar sobre o que vão fazer. Nesse momento de pandemia, em que fomos obrigados a ficar em casa, essa é uma boa reflexão. Defendo a ideia de que todos nós podemos ser líderes. O cidadão engajado é um líder e pode começar a fazer coisas que vão mexer com a cidade onde mora, por exemplo. Cada um precisa ficar mais consciente de que pode contribuir para o bem comum, apenas fazendo o que já faz, a partir de suas ações como cidadão. É só imaginar uma massa crítica de pessoas fazendo isso no mundo e naturalmente vamos começar um movimento, vamos reger uma revolução no sentido diferente do que temos vivido. Essa é a grande esperança de que esse período de reclusão possa trazer.

O que você preparou especialmente para a palestra do eWMS 2020?

O tema oficial já é bem revelador: Liderança consciente e a necessária reinvenção do conceito de “mercado”. Na sua definição convencional, um mercado é formado por potenciais clientes que compartilham um desejo específico. Como essa noção se transformaria se ampliássemos nossa visão para abranger todas as necessidades da sociedade, sem qualquer tipo de exclusão? Como essa noção ampliada de mercado nos levaria ao tipo de liderança mais necessário hoje? Na palestra, falo primeiro sobre a necessidade de se reinventar o conceito de “mercado”. Em seguida sobre quem deve ir ao encontro das necessidades desse “mercado expandido” para efetivamente atendê-las. E finalmente sobre o tipo de liderança necessária nestes novos tempos, em que as necessidades da população precisam ser atendidas com dignidade pelo conjunto da sociedade – governos, empresas e a própria sociedade civil organizada, inclusive os cidadãos do país, resgatando valores e a própria essência da democracia.