Tiranias Digitais

Fabio Nogueira é fundador e CEO do Observatório da Longevidade, um think tank focado na longevidade humana e corporativa. É também fundador e diretor do EPIC Innovation Center, diretor da ADVB – Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil, sócio diretor da Prosperidade Consultoria, da Prosperidade Educação e da Prosperidade Benefícios e conselheiro do Projeto AlmaAroma, que insere pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho

Meu primeiro celular chegou no inicio dos anos 2000. Antes disso eu era um ser livre. Se saísse de casa, só eu e Deus saberíamos para onde eu iria ou estaria. Mas naquela época eu conheci uma moça, com quem me uniria em breve, que não podia me ver sem o gadget do momento. Então arrumei um celular

Durante uns 10 anos ele foi um útil substituto do telefone de linha fixa, embora a conta fosse substancialmente mais alta. O sinal caia o tempo todo, havia sombras por toda a cidade e usar na estrada, nem pensar. Ainda assim, o telefone celular, “enquanto telefone”, era realmente muito conveniente

Por volta de 2010, os smartphones já estavam se tornando populares e, com eles, aquela leva de aplicativos que nos permitiam ver, falar, ouvir, dançar, ter reunião, encomendar comida, ver jogo de futebol e tudo mais

Muito tentador mas eu resistia. Lembro que, por essa época, eu levava minha filha pra lá e pra cá. Sempre que eu dizia, “filha, liga pra tal pessoa e avisa que a gente está chegando”, ela pegava no celular e mandava uma mensagem. Aquilo não fazia nenhum sentido. Telefone é para falar, não digitar. O que custava apertar alguns botões e falar diretamente com o humano do lado de lá? Mas não, tinha de enviar mensagem.

Lá por 2015 não tinha mais jeito. Os bancos migraram para o telefone. O email também. E o povo começou a cada vez mais trocar mensagens pelo whatsapp

Mas foi apenas em 2018 que as coisas viraram do avesso. A partir daquele ano, tudo passou a girar em torno do celular. Não consigo usar nenhuma das minhas várias contas digitais se o celular estiver desligado porque as várias funções bancárias são confirmadas por um código enviado via SMS. Também não consigo mais disparar e-mails marketing porque o Mailchimp enviar um authorization code, ou algo assim, para o meu celular. Se eu não colocar o tal code lá, ele impede o login

Todos os projetos em que eu estou envolvido operam a partir de uma comunidade no whatsapp. Todas as pessoas com quem eu tenho contato próximo, trocam mensagens o dia inteiro via whats. Todos os amigos desempregados, aposentados, milionários ou confinados passam o dia discutindo a história do planeta via whats. Meu telefone está no cadastro de cerca de 1.000 pessoas, afora um monte de robôs, que vivem me atulhando com mensagens sobre saúde (pró e contra a cloroquina), as vantagens da fé, os feitos e desfeitos do governo A ou B, a live da empresa X, me informando sobre a reunião que começou há 10 minutos (sendo que eu que abri a sala), a qualidade do serviço de entrega Express da farmácia, etc, etc, etc

O whatsapp me acompanha até quando eu estou no banheiro. Juro. Ou melhor, acompanhava. Porque sexta passada eu fui vítima do golpe mais besta do mundo. E o trouxa aqui caiu. Meu whats foi clonado. Pelo sim, pelo não, cancelei a linha. Vai saber se o sujeito não clonou o fone inteiro. Minha vida está lá. Não podia correr o risco. E assim, aquele número que me acompanha desde 2000, desde quando a Claro se chamava BCP, foi pras calendas.

Este fim de semana tem me proporcionado uma experiência maravilhosa. Não tenho celular. Está desligado. Não toca. Não chegam mensagens. Ninguém me procura. Não chegaram aquelas piadinhas que todo mundo já viu trocentas vezes. Nem documentos em powerpoint para revisão. Nenhuma reunião foi discutida ou reconfirmada. Ninguém mandou foto do seu drink preferido de confinamento. Ou afirmando pela milionésima vez que o Palmeiras não tem mundial. Passei um final de semana inteiro sem ver vídeos de gatinhos sapecas, bolsonaristas garantindo que o presidente é mito, petistas garantindo que Lula é honesto, amigos mandando foto de carros, gente lembrando da infância, outros divulgando ad nauseam um calendário de vacinação desatualizado. Aliás, metade de tudo o que eu recebo no whats é fake ou pura bobagem. Ficar sem receber esse entulho digital é uma dádiva

Mas amanhã será outra história

Primeiro, eu terei de achar uma loja da Claro aberta nesta cidade em lockdown (não sei mais se estamos em regime vermelho, amarelo, roxo, fechado, aberto, semi-fechado, em lei marcial, em toque de recolher ou sei lá mais o que inventaram). Assim que achar uma loja aberta, pegarei um chip e habilitarei a nova linha

Aí eu terei de informar todos os sistemas que estavam associados ao meu antigo número, do anti-virus do meu desktop aos email-marketings da vida. Também terei de informar os vários bancos (sou dono de 3 empresas, fundador e administrador financeiro de um centro de inovação e diretor de uma entidade de classe. Ou seja, sou responsável por muitos e-mails,  contas correntes, blogs e sites). Também terei de reconstruir minha base de contatos. Se tudo der certo, os contatos ainda estão no chip antigo. Sempre me falam isso mas cada vez que eu troco de celular os contatos se perdem, bem como as mensagens de whatsapp. Vamos ver se dessa vez algum santo lá em cima olha por mim. Precisarei me reconectar a todas as inúmeras comunidades às quais eu estava associado. E certamente há mil aplicativos instalados no meu celular que não identificarão automaticamente a nova linha. Históricos serão perdidos. Acho que até a Receita Federal desconfiará de mim agora.

Para o planeta, eu estou renascendo. Para mim, será mais um problema a ser resolvido no meio deste interminável esforço de sobrevivência pandêmica em que estamos todos imersos.

E tudo graças a um bandido que me acordou no meio da noite de sexta.  Que arda solenemente no fogo do inferno…. com um smartphone clonado nas mãos